sábado, 11 de julho de 2020

NEGATIVO 👊

Publicarei este texto bem depois de o escrever.
Escrevo-o agora, sexta-feira, 10/07/2020 às 09h48, enquanto aguardo ansiosamente por um telefonema.
Na quarta-feira, depois de adormecermos as miúdas e com trabalho a aparecer que nem cogumelos neste mês de julho, o meu querido hóme foi adiantar refeições e estufar um franguinho do campo. O cheiro era delicioso. Era meia-noite e pouco e eu, que sou fraca nestas coisas de me deitar tarde, já muito cansada, comi um iogurte, fiz-lhe um pouco de companhia, e fui deitar-me.
Normalmente sou sempre eu que me levanto com a mais nova. É a primeira a acordar e só sabe chamar «mãe» quando acorda... Bom, a questão é que miúda acordou na quinta às 06h20. Com todo o tempo do mundo, fomos para baixo, preparei-lhe o pequeno-almoço, e comecei a tratar do meu, que é todo um ritual criado na quarentena que me traz muito conforto: 1 abatanado e 1 fatia de pão torrado com manteiga.
Tirei o café e não senti cheiro.
Torrei o pão e não senti cheiro.
Pus o mel no café e a manteiga no pão.
Comi, e não me sabia a nada.
Bateu-me que, na noite anterior, quando comi um iogurte, apesar do cheiro do frango, comentei que estava estranho, porque só sentia acidez dos frutos vermelhos, e muito pouco açúcar. Mas ainda cheirava o aroma do iogurte.
Não hesitei em ligar para o SNS 24.
Rapidamente me encaminharam para os CHUC e lá fui eu sem saber o que me ia acontecer.
Meti na mala o kit de emergência - 2 lanches, água, 1 muda de roupa interior, kit de viagem de escova e pasta de dentes, desodorizante e carregador. E lá fui eu para Coimbra.
Obviamente que, depois de perguntar duas vezes ao telefone se me estavam mesmo a encaminhar para os HUC, porque depois a enfermeira já me dizia «olhe que é para o hospital da universidade», questionando se não deveria ir para os Covões, fui para os HUC, estacionei 40 minutos depois a 37km, cheguei à urgência uma médica muito querida que, felizmente, não me deixou entrar, pediu-me desculpa, que o SNS 24 ainda não tinha percebido que havia 2 hospitais distintos, mas que teria mesmo de ir para os Covões.
Lá fui, e felizmente estavam apenas 3 pessoas nas urgências, todas isoladas.
Fiz triagem, raio-x ao tórax e zaragatoa. Fui vista por uma médica 5 estrelas, também, e vim para casa aguardar o resultado, que chegará em 24 a 48 horas. Tenho muita fé nas 24h porque hoje é sexta, estava pouca gente lá, e o isolamento em casa é duro. A mais nova foi para os avós e a mais velha vai hoje para a mãe. Neste fim-de-tarde e manhã dela em casa estive sempre de máscara, afastada, sem contacto, sem nos cruzarmos praticamente. Fui dormir para o quarto da minha filha, usei sempre a mesma casa-de-banho, e todos os talheres e loiça que usei mais ninguém lhes tocou.
Aguardo, ansiosamente, que o resultado venha. Seja ele qual for.
Tudo isto para vos dizer que sempre me protegi. Na quarentena, saí de casa 1x a cada 15 dias para ir às compras, porque numa semana ia eu, na outra e o hóme, para conseguimos sair os 2 de forma equilibrada. Os sapatos ficaram à porta. Desinfetávamos as mãos regularmente. As compras que não precisavam de frio ficavam 24h religiosamente à porta e os frescos eram todos lavados e desinfetados antes de os guardar. Desde o desconfinamento, relaxámos na questão das compras - vamos mais vezes e acabamos por guardar tudo assim que chegamos a casa, mantendo a lavagem dos frescos. Fomos algumas vezes a esplanadas e comemos fora dentro de restaurante 4x. Fui uma vez com as miúdas à praia, ainda em maio, e viemos embora assim que comecei a achar que estava gente a mais. As miúdas regressaram à escola e ao ATL e já todo o pessoal foi testado 2x. Voltámos a juntar a família (somos 9 os que cá estão) mas ao ar livre e sem contacto físico.
O que vos quero dizer é que, seja lá qual for o resultado, não sei onde me posso ter desprotegido, não sei que risco poderei ter corrido além de sair de casa. Mas sei que este tempo de espera é assustador. Primeiro porque não quero alarmar ninguém, depois porque quero dizer a toda a gente «não se aproximem e fiquem atentos, protejam-se» mas não o posso fazer para não gerar alarme, e depois é gerir uma culpa tão estúpida de ter medo de, caso esteja infetada, ter infetado os meus e, ao mesmo tempo, de ter de me afastar da minha filha, sem explicações por enquanto, e ter umas saudades arrebatadoras, apesar de ser um período tão curto e ela saber que a casa dos avós também é a casa dela.
Cuidem-se, protejam-se, que eles andem aí!

sexta-feira, 10 de julho de 2020

dores monstruais (sim, está bem escrito)


Uso muitas vezes a metáfora montanha-russa para a minha vida. Mas nunca entrei em nenhuma nem ambiciono fazê-lo, talvez por entender que com os pés bem assentes no chão já tenho loopings e adrenalina que chegue.
Esta semana nunca mais acaba e nem sei ao certo o que vim escrever, que não é um lamento.
Adorava que as minhas dores do período fossem iguais às minhas dores de parto – zero.
Ou que fossem próximas daquilo que sentia quando tomava a pílula – zero.
Quando decidi largar a pílula, decisão independente da decisão de engravidar, queria que o meu corpo encontrasse um equilíbrio sem químicos e hormonas. No primeiro meio ano a coisa não correu nada mal, eventualmente por causa dos 10 anos de pílula que carregava comigo. E depois veio a Rita. E em junho / julho, meio ano depois dela nascer, tive a primeira menstruação e nunca nada voltou a ser como era.
Nos primeiros dois dias de menstruação, coisa que já não me lembrava que poderia durar mais de 2 ou 3 dias, as dores que tenho não me permitem sentar, sem ter pontadas no útero, adormecer a lutar com a dor e acordo de madrugada com dores até o sono me vencer. Há uns tempos ouvi da boca do senhor que dorme comigo, e que lida diariamente com a dor nas costas e pescoço, que este período mensal era sobrevalorizado pelas mulheres. Na altura dei-lhe um chá, ainda para mais a minha mãe estava presente (entendidos na matéria entenderão o que isto quer dizer) e, numa bonita coincidência, uma amiga partilhou uma página no IG sobre as dores e a endometriose.
Quando soube que estava grávida, depois de dois testes que dificilmente poderiam estar errados, marquei uma consulta num médico de referência, num hospital privado. Fez uma eco ginecológica e disse-me: «Não tem endometriose? Nunca lhe fizeram o diagnóstico? A senhora tem dores.»
E eu calei-me. Disse-me que tinha dores, mas nada além disso. Quando percebi a gravidade do que ele estava a falar, fui ao Dr. Google e assustei-me. Mas tudo correu bem, nunca na maternidade me falaram na questão da endometriose, e a vida seguiu.
Hoje, penso muito em voltar a um especialista. Sempre fui seguida pela médica de família, que adoro e confio a 200%, mas neste momento não é viável viver uma semana com as dores que tenho, além do fluxo próximo ao caudal do Rio Nilo. Voltar à pílula não é solução para mim, que sou uma esquecida, e o DIU hormonal, que inibe a menstruação, também não.
Bom, não era sobre nada disto que vinha escrever. Mas deixo o outro assunto para mais tarde.
Miúdas e graúdas desse lado, cuidem-se, não deixem que desvalorizem este período do mês, e não entendam que a dor e o sofrimento faz parte, que para isso já chegam os pregadores de nosso senhor.