quinta-feira, 23 de junho de 2022

Àqueles que «educam»

 Há uns tempos, uma menina disse-me que, na sua escola, à hora do almoço, quem demorava a comer era «ameaçado» pelos adultos que lhe punham um babete.

A primeira imagem que me veio à cabeça foi o meu sogro, que toda a vida comeu com o devido guardanapo na camisa, para que não sujasse a roupa.

A segunda imagem foi uma ida a um restaurante de ribs, em Espanha, em que todos fomos presenteados por babetes, para não nos sujarmos.

A terceira imagem foi aquela meio inatingível, de ir a um restaurante michelin comer marisco do bom e ser brindada com um babete xpto.

Conclusão - partilhei estas imagens com a criança, explicando-lhe que não entendia a ligação entre o comer devagar e o babete.

Apareceu-me ainda uma quarta imagem, sem qualquer valor, que foi o da minha filha sem babete toda a vida, a não ser mesmo na iniciação à alimentação, porque nunca se babou, logo, nunca andou de babete.

A ordem das imagens foi mesmo esta... Que me desculpem os puritanos, mas o meu universo é mesmo seletivo!

Acabei agora de me cruzar com uma publicação do Solar dos Presuntos, onde várias «estrelas», em diversas fotos, aparecem de babete.

Era só isto.

E se a internet o diz...


Bom, dos babetes podemos ir além.

Podemos ir aos profs que massacram os putos com tpc diário e que demoram 3 semanas a entregar testes de português, matemática e estudo do meio no 1.º ciclo. Qual é a parte da relação e da educação nisto? É «quero isto feito amanhã senão têm falta» e «tenho de entregar os testes na semana anterior aos próximos testes para não me chatearem»? 

As relações que se constroem, e que nos trazem desafio, conforto e felicidade, são bilaterais! SEMPRE. Então pensemos nisto, deixemos a nossa superioridade de lado e continuemos a caminhar juntos, que é o que nos dá prazer nesta vida.

Bem, vou ficar por aqui, que este SMS já virou MMS e não está incluído no pacote...

Um dia venho cá despejar mais alguns pensamentos soltos, agora, voltemos à novela do Zé, que está quase a chegar!


quarta-feira, 25 de maio de 2022

Capítulo T1 para 2

 Digam lá que este intervalo não parece aquele de domingo à noite, entre o Ricardo Araújo Pereira dizer «Boa noite, começamos dentro de momentos.» e aqueles 20 minutos muito bem pagos naquele horário?


Bom, ano novo, vida nova, e o maior susto das nossas vidas, que me lembre.

Depois da ida às urgências, na ida à obstetra soube que estava tudo bem. Porém, não estava tudo bem com o bebé, mas sim tudo bem com OS BEBÉS.

DOIS.

GÉMEOS.

Porra!

Caiu-me TUDO. Quando contei ao mê hóme, pensava que eu estava a gozar. Valeu-me ter uma foto única com dois sacos, dois embriões, duas placentas, tudo a dobrar, dentro do meu rico útero.

Como dizia a médica «É uma gravidez que são duas completamente autónomas dentro do mesmo útero.».

Se vos disser, com muitas testemunhas, que passámos o verão a dizer que íamos fazer os gémeos... E aí estavam eles!



Foi um mês sem dormir, a fazer contas à vida. A ouvir toda a gente que «tudo se faz» e a tentar gerir uma dinâmica familiar que iria passar de 4 para 6 pessoas. Trocar carros, uma casa sem quartos suficientes, enxovais a dobrar, despesas atrás de despesas. E, talvez o maior dilema de todos, ter dois bebés a caminho que, afinal, não eram assim tão desejados.

É estranho, mas é isto. Não queríamos gémeos. Não quisemos e continuámos a não querer.

O stress foi tal que, só numa semana, bati 3x com o carro em sítios (felizmente paredes e passeios) que percorro diariamente. 

Tínhamos o coração a sair pela boca, o sono a fugir todas as noites, e contas e mais contas a fazer.

Descobrimos juntos que a vinda de um bebé, ou dois, mesmo que desejada e planeada, podia ter um sabor agridoce. 

As ecos eram semanais, e tudo corria bem. A barriga em dois meses cresceu muito. Era tudo a dobrar, o corpo a responder e a reagir a uma velocidade louca, e nada assimilado. 

Às 12 semanas vimos que 1 deles não tinha desenvolvido. 

Estava no útero, com um tamanho mais reduzido e sem batimentos. 

Querem que vos diga como reagi? 

Com muito alívio. 

Naquele momento, naquela sala de ecografias da maternidade, perdi 20kgs, rejuvenesci e respirei fundo. 

A médica simpatizou com o alívio, sentindo-se também aliviada pela receção da notícia. 

O mais estranho nesta situação foi gerir as reações à nossa volta. A dor ou compaixão que alguns sentiram quando nós nos sentíamos aliviados.

A maior lição foi esta: entender que nem tudo aquilo com que brincamos ou achamos que desejamos nos deixa felizes, e a partilha daquilo que para nós foi um alívio, para aqueles que fazem parte da nossa vida, pode ser uma dor ou uma tristeza que nos parece quase estranha, mas que têm todo o direito a sentir. 

Sei que falamos de uma perda gestacional, que é uma questão muito pessoal e que quase ninguém partilha.

Esta é a nossa história. Diferente das outras todas.

Um dia, uma pessoa muito querida disse-me 

«Atingi todos os meus objetivos de vida, e percebi que nada disso me fez feliz.».



quarta-feira, 4 de maio de 2022

Capítulo 2

 Bom, parámos na parte de ter encontrado uma maravilhosa ginecologista.

Análises feitas, historial estudado e a ordem foi simples - se é para vir outro filho, vamos lá começar a tentar porque é possível, sem stress, sem pressão.

Meus filhxs, a pessoa ouve isso e faz o quê? Vai logo sacar a aplicação do calendário menstrual para ver os dias do período fértil. Basicamente exatamente o que a ginecologista disse para não fazer. Até vos digo mais, saquei logo 2 diferentes, porque a margem de dias é diferente...

Enquanto isso, passámos uma verão de morte, só em agosto apresentámos e produzimos 40 espetáculos, fora todo o resto, e, em tom de brincadeira, lá dizíamos a todos, a desmontar «vamos lá depressa que tenho os gémeos para ir fazer.»

Foram 4 meses a tentar, a fazer contas, a chatear-me mensalmente e, o pior de tudo, com  dois atrasos pelo meio, coisa que nunca me tinha acontecido a não ser da primeira vez que estive grávida. 

Em outubro desisti dessa porcaria das contas. Encaixei que se tivesse de ser seria, desinstalei o calendário, e a vida seguiu dentro de momentos, muito mais leve.

Novembro foi um mês muito duro. A perda do meu sogro foi um momento emocionalmente muito complicado e a cabeça estava em todos os lugares menos na vinda de um filho.

Chegou o Natal e devia ter chegado o período uma semana antes. Mas não chegou. Mas também não era a primeira vez, nos últimos meses, que tal acontecia. Então olhem, comi e bebi tudo o que quis. 

No dia seguinte, dois pauzinhos num teste por descargo de consciência. 



O ano não acabou aqui. 

No fim-de-ano havia festa cá em casa. Pela primeira vez, íamos ser quase 20 a comemorar a meia-noite.

Eis que, arrumando a loiça do almoço, senti um corrimento quente. Era sangue. E corri para as urgências da Maternidade. 

Não passara de um susto. Seria um depósito que já existiria há algum tempo e, pela primeira vez, via a vesícula vitelina instalada no meu útero. Uma coisa minúscula. 

Chegada a casa, entendemos que o melhor seria contar às miúdas, que queriam muito um bebé, e, mais tarde, partilhar com a família e amigos. Porque é para isto que serve a família e os amigos. Para partilharmos a nossa vida, na alegria e na tristeza. E 31 de dezembro era sem dúvida um dia para comemorar, e para chutar o ano antigo.


quarta-feira, 27 de abril de 2022

Capítulo seguinte

 Não ia deixar a história acabar aqui.

Mas a vodafone sem serviço e as festividades e trabalho redobrado contribuíram com 0,5% do seu IRS para esta causa.


Em junho de 2021, estava eu naquela posição confortável, deitadinha de perna aberta no SEMER do CHUC com uma coisa enfiada até aos pulmões para tentarem ver os meus ovários num útero que mais parece um S (muito descritivo...?), e o médico só me diz:

- Já é mãe?

- Já! 

- Ainda bem. Porque tem muito poucos ovócitos. Não podemos fazer a estimulação para a doação e nem vai a tempo de ter mais filhos. Eventualmente deve procurar um médico, porque como isto está, na sua idade, não é normal, pode até entrar numa menopausa precoce.

Fiquei ali só a tentar decifrar o que tinha ouvido.

Agradeci muito, fui pedir uma justificação para levar para o trabalho, e saí. 

Por umas horas, chorei copiosamente, perdida, sem saber para onde me virar e com medo do «não vai a tempo de ter mais filhos.» 

Alguns conhecidos com quem partilhei a história diziam-me «então, mas ias doar óvulos, qual o problema de não teres mais filhos?». Ora, a primeira questão é que doar óvulos não impede ninguém de voltar a ser mãe. E o processo de doação, com a pandemia, demorou mais de 1 ano até à primeira consulta, e não estava nos planos voltar a ser mãe, pelo menos, por enquanto.

Nesse tempo em que pensava ter ficado sem chão, burrinha que só eu, tive o melhor tapete da minha vida, que me amparou, como faz diariamente. E a minha mãezinha, forte como o aço. E uma amiga que na hora me indicou a melhor ginecologista do mundo, que no dia seguinte me recebia no seu consultório. 

Bom, então agora, vamos esquecer tudo o que o médico disse... 

Importava fazer uma análise que nunca tinha feito, e cujo valor, na verdade, era bastante baixo para o expectável: hormona anti-mulleriana, que é uma avaliação da reserva ovárica.

Antes de continuar, num próximo capítulo, notas para todas as mulheres:

N1 - sabia, desde que tinha sido mãe, que algo não andava bem. Apesar de ter uma menstruação regular, as dores eram demasiadas e ninguém detetava endometriose ou qualquer outra questão. Foi preciso chegar aqui para começar a descobrir algumas possibilidades e formas de encontrar conforto sem tomar a pílula ou qualquer substituto hormonal. (Não tomo a pílula há mais de 8 anos por opção.)

N2 - procurem, as vezes que forem precisas, um/a ginecologista que gostem, que vos oiça e que vos transmita confiança na sua prática e nas suas convenções como profissional. É essencial para o nosso bem-estar, e eu perdi 5 anos de bem-estar mensal à custa de não ter quem me guiasse.

N3 - se receberem algum diagnóstico assim «fatal», procurem uma 2ª e até uma 3ª opinião. Nem tudo é o que parece.

E agora, não percam o próximo episódio, porque nós também não... 


quinta-feira, 14 de abril de 2022

«Que não há taça, amor, para este vinho»

Capítulo 0. 

Escrevi isto no dia 29 de junho de 2021. Foi um dia de «arrumações» de assuntos difíceis, resoluções e bola para a frente.

Mal sabíamos que os meses seguintes poderiam ser ainda mais duros e desafiantes do que tudo o que estava para trás.

Mas seguíamos juntos, com uma certeza. Que o lugar de um é ao lado do outro. E se a caminhada for difícil para um de nós, o outro puxa.

Venha de lá a piroseira, e a única foto juntos do verão, com o sol a cegar-nos as trombas.


29-06-2021

Vou ser muito pirosa e ele vai dizer qualquer coisa como «a sério?!». 

Mas os últimos tempos têm-nos ensinado, das mais variadas formas, que o amanhã é muito relativo.

Pessoas queridas que desaparecem numa doença fulminante, um emprego estável que nos foge dos pés numa pandemia, projetos que se adiaram e que urgem acontecer hoje, doenças prolongadas que, também a nós, nos deixam doentes, uma luta diária para chegar ao fim do dia com alguma confiança num amanhã melhor, as maleitas que diariamente nos azucrinam e que vão sempre somando mais qualquer coisinha.

Tanta mas tanta merda que nos passou pela frente, e até mesmo por cima, nos últimos 15 meses, que dava um bom filme.

Mas nós cá estamos, seguindo firmes e fortes no colo um do outro. 

Passaram-se mais de 7 anos desde o dia em que conversámos e decidimos que o caminho que iríamos percorrer teria de ser feito lado a lado. 

Nunca pensei chegar aqui. «Nem eu», pensas tu de certezinha!

Só queria partilhar com o mundo que «nós» não nascemos de um dia para o outro e não vivemos sempre um conto de fadas.

Contigo aprendi o que é estar lá, sempre, um para o outro. Aprendi a dar a mão quando se cai. Aprendi que todos podemos errar. Aprendi que a paixão não dura para sempre, mas que o amor se constrói e se alimenta diariamente, e que desafiante que isso é. 

Temos muitos desafios em mãos, muitos projetos a curto prazo, e somos uma antagonia perfeita.


Miminho, que venham mais 7. 

E que continuemos a construir a nossa história com fotos de má vontade, gordices e muito amor.


terça-feira, 12 de abril de 2022

Prefácio.

 06-04-2022, perto das 08h00.


Ontem foi dia dos filhos, hoje acordo e leio a manchete «doar óvulos é como doar sangue» e estou a ficar com a virose da minha filha, ao sétimo dia de convívio com ela em casa, na cama, na cozinha, na casa-de-banho e a chamar-me aos gritos assim que me afasto mais de 1m (podem ler metro ou minuto, que para ela tanto faz...) dela.

Segundo especialistas, esta é a hora certa para começar a escrever a história deste segundo bebé.


12-04-2022, 11h04

Depois disto, a virose não era virose, mas sim gripe A. Fui atropelada por um camião TIR carregado de gripe, pensei que ia de ambulância para o hospital às 03h00 com 39.ºC, deixei de sentir o bebé e passei a senti-lo como nunca. O Jay D da Tia Lena teve uma convulsão febril e ela não só partilhou a sua experiência como a sua visão sobre a partilha das histórias da nossa vida, porque nunca estamos sozinhos. Recebi mensagens de várias amigas e conhecidas que também estão grávidas e que não fazia ideia. Partilhámos experiências, medos, ansiedades. E percebi que, mais uma vez, a minha história, a nossa história, não era única. Então decidi começar a escrevê-la. 

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Carta aos Adultos

 E ao tempo que eu não vinha aqui, e as dezenas de ideias para escrever que deixei escapar...

Ainda assim, há um tempo para tudo, e acho que uma iluminação que me surgiu ontem agrega muita coisa que queria ter escrito nos últimos tempos.


Carta aos Adultos


Ser criança é difícil para caramba. Vivem no seu mundo, com uma energia desmesurada, e levam constantemente com convenções, ordens e humores dos adultos.

Não me sinto uma super mãe, mas sinto-me mesmo a melhor mãe do mundo para a minha filha.

Conversamos muito. Desde que nasceu que conversamos bastante. E não há nada melhor do que boa comunicação para garantirmos que estamos em paz connosco e com quem nos rodeia. Pimba. Só aqui, primeira lição para os adultos, que tantos problemas de comunicação têm (eu incluída!).

Depois, damos por "nós", adultos, a construir-lhes e a fazê-las acreditar num mundo que não existe. Inventamos teorias, desculpas e mentirinhas, para que elas não se assustem, não se magoem, não façam perguntas inconvenientes, etc.

Cada vez que me vejo a ir por esse caminho, faço inversão de marcha e falo preto no branco.

Acho que as crianças devem saber como funciona o mundo que as rodeia, com a informação certa q.b. para a idade. Sem desmanchar toda a fantasia mas sem criar ideias fantasiosas que nos saiam caras mais tarde. E nisto posso incluir, literalmente, o mundo. Grande redundância. Mas não sei dizê-lo de outra forma.

Exemplos vários: 

- A educadora vai embora. Ok. Explicamos que vai ter outras oportunidades, outro trabalho, mudar de cidade, etc. Como pode acontecer com qualquer um de nós. Sem dramas e sem mentiras que nos façam ouvir o «quando é que volta?». Esta questão aconteceu lá em casa, e depois da explicação a pergunta foi: «E vai voltar?» e a resposta foi simple «Não, filha. Vais ter uma nova, que te vai ensinar coisas novas e trazer experiências diferentes.» Assunto arrumado com sucesso e prova superada!

- De onde saem os bebés? Pela barriga, como foi o caso lá em casa, ou pelo «bibi», apelido trazido da escola pela criança, que adotámos sem stress. Viu a cicatriz, percebeu no seu corpo que tem um buraquinho para o xixi e outro, para saírem bebés, ou sangue, quando for crescida e não houver bebés. 

- Esta pergunta levou a outra: como é que aparecem os bebés? Claaaaro que as pernas tremeram e veio um suorzinho. Como explicar a uma miúda de 4 anos sem mentir e sem demasiada informação? «Bom, quando dois adultos gostam muito um do outro namoram, e quando estão a namorar, bem juntinhos, o homem dá uma espécie de semente à mulher, e daí pode nascer um bebé». Prova superada com MUITO SUCESSO porque não veio a pergunta seguinte: «Como?». Mas sabe que a semente vem pela pilinha, e entre na «barriga» da mulher. Informação q.b. para não achar que se compram, que se encomenda, que é uma semente que vai pelo umbigo, etc.

- E passando do nascimento à morte, a clarificação do conceito e o facto de ser a única certeza que temos na vida. Não há filme da Disney que não tenha mortes ou órfãos. E lá em casa o consumo da Disney é quase diário e é muito incentivado. Então veio a pergunta: «Oh mãe, quando morremos ficamos a dormir e passado muito tempo acordamos?». Não filha, quando morremos, é como se ficássemos a dormir para sempre. Mas o nosso coração pára de bater e deixamos de respirar. Nunca mais vivemos. Deixamos de existir e de sermos vistos. OK. A miúda lá andou uns dias a pedir que não morrêssemos, e a contar os «velhinhos» todos que conhecia com medo que algum desaparecesse. Depois de repetir não sei quantos filmes, entendeu que nem sempre morriam só os velhinhos. Às vezes dávamos por ela a ver notícias com muita atenção e perguntava quem tinha morrido, como e porquê. "Do nada", digo eu, veio o interesse pelas mortes da família. Os bisavós que não conheceu, e outros que tais. São conversa quase diária. Quer saber mais e mais sobre eles. Sabe que uns estão no cemitério - sítio onde vamos em breve para ela ver o que é como se organiza, etc. - e outros foram cremados e estão guardados em sítios especiais. Perguntou se renasciam, porque acreditava nisso. Que podiam renascer em plantas, animais ou outras pessoas. Nem eu nem o pai acreditamos nisso. Disse-lhe que se ela acreditava nisso, talvez fosse possível. Mas que eu apenas acreditava na renovação da vida. E que depois de um período difícil, triste, depois de uma perda, a vida renovava-se de alguma forma e trazia coisas boas. Ficou a olhar para mim pouco convencida. E eu fiquei a olhar para ela pouco convencida, também. Porque ela gera-se na primavera seguinte à morte do meu avô Alberto, e nasce tão generosa e palhaça quanto ele. Se isto é renovação ou renascimento, eu já não sei. 

- Por fim, a polémica do fim-de-semana sobre as crianças só «falarem brasileiro». Desde que a miúda nasceu que a nossa família tem uma ligação direta ao Brasil. Eu sempre fui fascinada, e desde que o meu irmão foi viver para lá que se há forma de matar saudades dele e daquele país é ouvindo música brasileiro, lendo poetas brasileiros, consumindo muito Brasil, até na alimentação. Então, quando ela começa a comunicar, pouco depois, vem o primo nascido lá, que vive lá e que, por muito português que o pai seja, é 200% brasileiro. Vem o Luccas Neto, vem a Maria Clara, vem o canal da Nastya traduzido, etc. etc. etc. Vem o funk que ela gosta de ouvir, Anitta e afins. Não a protejo de nada. Ela vem influenciada da escola ou da irmã. De alguma forma eles chegam a nomes e músicas que nem sabíamos que existiam. A seguir também ouve Caetano Veloso e dança Gilberto Gil. E canta Melim, Ivete e outros. Sabe que geladeira é frigorífico, mamadeira é biberão, banheiro é casa-de-banho. Sabe que a comida é gostosa e que uma coisa pode ser «muito legal!». Sabe que brinca quando fala com sotaque, e pica o pai quando, propositadamente, usa essas palavras de forma fluente. O consumo desses canais e músicas só lhe trouxe mais vocabulário e alegria, fantasia, imaginação. A mediação entre o que eles consomem e o dia-a-dia é fundamental e não fundamentalista. Não entendo sequer como é notícia a questão das crianças «só falarem brasileiro». Porque: 1. brasileiro é um cidadão nascido no Brasil; 2. a notícia deveria ser esta falta de comunicação e de mediação de quem cria e educa as crianças. Isso sim, deveria ser a notícia.

Bom, a carta vai longa, e todos perdemos mais tempo a ler posts rápidos nas redes do que longas linhas de texto. Ainda por cima, sinto que a escrevi do alto de um pedestal, e peço desculpa aos mais sensíveis por isso. Mas isto vale o que vale, e às vezes oiço tantos pais a queixarem-se que não sabem como lidar, como fazer, como responder, como explicar, que me pergunto que mundo criaram para as suas crianças. Porque eu só conheço este mundo, aquele em que eu vivo com a minha filha. 

Se não querem estupidificar as crianças, nem fazê-las passar por situações embaraçosas, não se embaracem também, e comuniquem. 

E por fim, deixo aqui um louvor a quem acompanha a minha filha na escola, um especial à Lili, educadora, que lhes responde a tudo, que lhes mostra como as coisas funciona e as torna crianças atentas, informadas e perspicazes. 

Até daqui a uns meses, eventualmente. 

✌❤